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O homem que tudo faz para ser livre e o outro que tem medo da liberdade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.08.08

 

Um jovem bancário é acusado de homicídio e condenado a prisão perpétua. Nunca se conformará com a sua situação e tudo fará para lhe escapar.

Um veterano da vida em cativeiro aconselha-o, tentando protegê-lo: se quer sobreviver ali, tem de aceitar a sua nova condição, de prisioneiro, e desistir da esperança.

Estranho conselho... E isso foi logo o que me impressionou em The Shawshank Redemption. (1)

Morgan Freeman (2) aqui no seu papel, o do prisioneiro-veterano, o que pensa ter conseguido converter o jovem revoltado.

Mas o nosso jovem, um altíssimo Tim Robbins, não só não desistirá nunca, como tudo fará para preparar a sua vida pós-cativeiro!

 

Não, não vou estragar o filme aos que ainda não o viram. Só dou uma pista marota: o nosso jovem bancário é simplesmente um "mago financeiro", perito em investimentos, transferências de fundos, manipulações de relatórios contabilísticos. E o Director da prisão, que é muito mauzinho como quase todos o são nos filmes, pede-lhe conselhos sobre investimentos...

A amizade dos dois homens, o jovem e o veterano, é talvez o que mais impressiona no filme: os laços são muito mais fortes quando se partilha o pior. Há uma lealdade para a vida, aconteça o que acontecer.

Mas a razão que me levará a revê-lo está nesta palavra, dita com amargura e desencanto por Morgan Freeman: institutionalized. Ele explica: após anos na prisão, uma pessoa deixa de conceber uma outra vida que não seja aquela. Passa a ter medo da liberdade. Ele acha que no seu caso é tarde demais, que não se vai adaptar à vida lá fora, quando terminar a pena.

 

Institutionalized, definição genial para a habituação à total dependência. Perda da autonomia, da noção de esperança, de uma vida projectada no futuro. (Impressionante noção, que pode ser aplicada a outras situações de dependência social, já repararam?) Sempre que se retira a alguém essa possibilidade de pensar por si próprio, de descobrir, de arriscar, de decidir, tira-se-lhe a energia vital, uma razão de viver, a sua bússula interna, a sua rota, as suas prioridades. Para sobreviver em cativeiro, para não enlouquecer, uns optam pela desistência. Daí o medo da liberdade.

E a realidade é mesmo essa. O filme também a refere: ex-presidiários no primeiro dia de liberdade, que passam por essa fase, o contacto no exterior, o emprego, o quarto, o suicídio.

Mas não será assim com Morgan Freeman. É provável que já tenha contado demais, mas aí vai: o amigo, antes de escapar, fá-lo memorizar um percurso, um roteiro. É esse percurso que ele seguirá quando se vê fora das grades.

 

Sim, podíamos pegar em The Shawshank Redemption pelo sabor da liberdade. Mas resolvi destacar esta definição genial: institutionalized. É muito actual, a meu ver, nas suas diversas aplicações. Vemos esse processo, no seu limite, no também genial 1984. A organização de toda uma sociedade para a vida em cativeiro.

 

 

 

(1) Na tradução do título, ficou Os Condenados de Shawshank, e como não gosto da palavra condenados... embora aqui viesse mesmo a calhar... De referir o mais importante: assim como o Stand by me, é baseado numa novela de Stephen King.

(2) Morgan Freeman, que me pregou recentemente um valente susto ao quase partir deste mundo numa estrada do Mississippi... O único actor que pode fazer de Deus. Lembram-se?, em que o Steve Carell faz de Noé?...

 

 

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publicado às 16:01

"I know things about people, Lilly..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.08.08

 

Esta é, para mim, a frase mais sedutora dos filmes que vi. Clint Eastwood já entradote, em herói solitário e desencantado, a tentar recuperar o tempo perdido, "I've got to come back", porque falhou da primeira vez... Na Linha de Fogo, pois.

Podem questionar-me: o quê? Clint Eastwood, e já entradote, o mais sedutor? Então, e Clark Gable, Gary Cooper, William Holden, Burt Lancaster, Paul Newman, George Clooney? Tudo bem, todos eles! E tantos outros! Mas... I know things about people, Lilly... na voz de um herói já fora de prazo, é a sedução perfeita, porque não é apenas um jogo que se joga por jogar, é a sério!, tem consistência, é uma cumplicidade de iguais, uma cumplicidade brincalhona e inteligente, parecida com a lealdade e a confiança, como se formassem uma equipa.

 

Amanhã continuo a minha defesa da sedução neste filme e por este filme...

 

O que me seduziu n' A Linha de Fogo, pois. A qualidade dos diálogos. Já não há diálogos assim. Só os vemos nos filmes dos anos 30, 40, 50. Também a fotografia, belíssima. E a música que nos embala, Ennio Morricone...

O tema do filme nem é muito interessante: um agente obcecado por ter falhado na protecção do Presidente Kennedy e que insiste em se manter no activo apesar da idade. Todos ali o querem ver pelas costas porque o consideram um obsessivo, com demasiadas exigências para apertar a segurança e reduzir os riscos. Isto em ano de eleições, dizem-lhe, não vem nada a calhar. Mas o nosso herói lá consegue ser destacado para a segurança do Presidente e, caso seja necessário, ainda irá apanhar com a bala mortal.

 

Esta é a minha personagem preferida de Clint Eastwood. Aqui acompanhado na perfeição por Rene Russo, a Lilly, no seu papel também. O encontro dos dois, magnífico! Deles podíamos dizer: e tudo começou de uma forma provocadora e sedutora. Sim, terrivelmente sedutora. I know things about people, Lilly...

Mais tarde Lilly perguntar-lhe-á: "Porque está sempre a namoriscar comigo?"

(Ah, porquê? Nós vemos perfeitamente porquê.)

"Se ela olhar para trás, é porque está interessada."  ...

E ela olhou.

Será assim até ao final do filme. A construção de uma amizade leal e de uma cumplicidade sedutora. Ao som do jazz.

Apesar das muitas peripécias, com os telefonemas de um psicopata pelo meio, e todos a afastá-lo das funções, Lilly irá defendê-lo até ao fim. E é um herói muito pouco convencional que lhe perguntará no avião: "E o que aconteceria se eu desistisse do meu trabalho por si?"

Ah, a cena final, ao som de Ennio Morricone, aquela claridade, tudo nos deixa sem palavras... a não ser, as de Clint Eastwood: I know things about pigeons, Lilly...

(Sim, isso mesmo. A conversa tranquila, lado a lado, desta vez é mesmo sobre pombos.)

 

 

 

Obs.: Podia ter escolhido o Clint Eastwood-realizador, onde é visível o seu enorme talento e o seu amor ao Cinema, mas não é esse o meu Clint Eastwood. O meu Clint Eastwood é o que largou o cavalo e as planícies do oeste e entrou na cidade, num carro-banheira dos anos 70. O Clint Eastwood já entradote, o herói solitário e romântico, independente até à medula, nada convencional, que pensa pela própria cabeça (o que lhe trará sempre problemas), e que gosta de jazz. Mesmo que esses filmes não sejam filmes maiores, como os seus, as suas personagens são sempre fabulosas.

 

 

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publicado às 15:45

A arte apanha-nos sempre desprevenidos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.08.08

 

Como contei no último post, vi The Red Badge of Courage pela primeira vez, dia 5, no canal TCM. Pensamos (erradamente) que depois da idade impressionável poucas coisas nos vêm surpreender. Puro engano. A arte - e a arte em Cinema - apanha-nos sempre desprevenidos.

 

The Red Badge of Courage mostra-nos a guerra (neste caso a Guerra Civil Americana) através do olhar de um jovem soldado. O terrível processo de encolher a alma inquieta e febril de um rapaz e levá-lo à maior angústia, a do medo. E à fuga, em plena batalha.

Claro que ninguém no meio da confusão, dos estrondos e do fumo, deu por isso!? Muitos terão tentado o mesmo, como lhe dirá o amigo mais próximo. Mas até ter descoberto isso, e que tinha sido dado como morto na altura, o rapaz terá de sofrer a vergonha dessa reacção instintiva (e humana) de salvar a pele.

E é quando vê passar os soldados feridos, pelo caminho poeirento, que desejará, ele também, ter uma marca qualquer no corpo, uma marca que sirva de prova de coragem.  Ainda terá a sua marca, não de uma bala ou estilhaço, mas de uma forte pancada na cabeça. De qualquer modo é uma marca, que irá mostrar, envergonhado, ao seu amigo, como fazem os rapazinhos com as mazelas visíveis das suas aventuras. E na batalha seguinte, como qualquer adolescente que desafia a morte, avançará intrépido no terreno, a disparar, e pegará na bandeira caída em pleno campo.

 

Só alguém com uma inteligência e sensibilidade filosófica fora do comum, eu diria mesmo, fora deste mundo, conseguiria, como John Huston aqui consegue:

- mostrar-nos todo o horror da guerra, a sua estupidez e insanidade, a sua lógica contra o indivíduo e contra tudo o que está vivo. O encontro final, já no final da batalha, entre os soldados do Norte e do Sul, é insuportavelmente comovente. A guerra não é sua. É uma lógica que os transcende;

- mostrar o contraste brutal vida-morte, ordem - caos, claridade - escuridão, num pequeno pormenor: o som de um simples pássaro e o sol através da folhagem;

- traduzir para linguagem do cinema - planos, movimento, sequências -, o percurso dos soldados, as suas dúvidas e angústias. E as cenas de batalha... A fotografia aqui é de tirar o fôlego. E o ritmo é perfeito. Assim como a banda sonora, magnífica.

 

A preto e branco fica tudo mais intenso, porque é a linguagem mais próxima dos sonhos (e dos pesadelos). Retive num recanto do meu cérebro esta imagem e esta frase: no regresso da batalha, que eles julgavam a última, um rebelde apoia um ianque ferido. Alguém disse: It was all a mistake.

 

 

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publicado às 16:33

John Huston e um dia de sol

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.08.08

Ontem foi O Dia John Huston no canal TCM. Soube-o por acaso, quando por lá passei à espera de um "milagre". E às vezes, sim, às vezes, o "milagre" acontece: apanhei, quase no início, The Treasure of the Sierra Madre. No final, uma entrevista com a filha, Angelica Huston e o anúncio do filme seguinte (que nunca tinha visto): The Red Badge of Courage.

John Huston, como fui espreitar a uma breve biografia, nasceu a 5 de Agosto de 1906, no Nevada. E para celebrar aqui, com um dia de atraso, o seu cinema-arte - como disse, tão poeticamente, Angelica Huston: a bitter sweet morality about it, lembrei-me de um texto que lhe dediquei, e às suas personagens, e que anda a navegar desde 97... Dei-lhe o título poético John Huston e um dia de sol. Aí vai, devidamente adaptado à navegação deste rio:

 

Primeiro, o cenário. Muita luz, branca. De sol ao meio dia. De um país da América central ou de África. As sierras ou as plantações. Não esquecer as personagens. O protagonista d' As Raízes do Céu aproxima-se de papel na mão. Dizem que o seu criador lhe deu essa capacidade rara nas pessoas, a determinação. Mas há quem diga que foi a imaginação que o salvou durante a guerra, preso num espaço exíguo. Conseguia transportar-se para essas planícies intermináveis onde manadas de elefantes se deslocam em liberdade. O determinado e imaginativo cruza-se agora com uma criatura louríssima como o sol africano e os movimentos, uma coreografia estonteante. Lamentou profundamente que não estivessem no mesmo filme. A vida é injusta, pensou. Não estamos no mesmo filme mas ainda me vai assinar a petição. Assinou, depois a mesma coreografia de bailarina. Descobriu mais tarde, e devido à sua capacidade imaginativa, tratar-se de uma das personagens d' Os Inadaptados. Não tinha nada o ar de inadaptada mas as aparências iludem mesmo os mais perspicazes.

A mania de nos obrigar a trepar esta montanha com este calor. Outro protagonista ao sol do meio dia. Nem uma bebida fresca. Que falha na organização! Eh, viste passar o das petições? Encontramo-nos a toda a hora desde que me meteram naquela aventura horrorosa em África. Pelo menos o calor aqui é seco. Andar a trepar montanhas ou a puxar por um barco a cair aos bocados num rio africano, eis o preço da amizade. Ele gosta de nos ver transpirar. O calor não o afecta, antes pelo contrário. Parece um lagarto, os olhos de lagarto, o sangue frio. Gargalhadas.

Foi o que eu vi naquela noite, no México, que as iguanas se parecem com ele. Gargalhadas. E bebe mais do que eu, pelo menos aguenta-se melhor. Deve ser do sangue frio. O homem deve ser é uma espécie de mágico, um hipnotizador, porque eu não acredito que só pela amizade me apanhava nesta sierra. Aponta para o vale. Pelo menos o cônsul tem a sorte de passar o filme no bar, naquela esplanada à sombra.

Sim, sim, mas farta-se de sofrer e isso é o pior, vermo-nos encurralados na pele de um sofredor. Pelo menos eu tenho momentos divertidos e mesmo alguns em que se sente o verdadeiro calor humano. É preciso ter estrutura de sofredor para suportar o que ele suporta. Ou gostar de sofrer.

Meus amigos, porque é que a verdade é tão cruel? Ambos se voltaram para a olhar.

O protagonista de aventuras em África suspira. É a nossa amiga que nunca se queixa da vida, continua a descer aquele rio com o ar mais natural deste mundo.

A amiga sorriu, depois dirigiu a voz solene para o noctívago em noites mexicanas. E o teu anjo protector?

Não sou o único cruel nestes cenários, mas os piores por vezes são os melhores, cada um no seu papel, o meu anjo esfuma-se sempre, sempre quando amanhece... mas tenho o mar e uma companhia, é mais do que suficiente para um elemento da espécie humana.

Não sejas tão sarcástico, pode ser suficiente para a espécie humana como dizes, mas não é para uma personagem. Voltaram-se, era o homem das petições e dos elefantes. E a minha causa é esta, as nossas causas são sempre maiores do que nós, os nossos sonhos maiores do que nós...

Elefantes, que grande causa... O tom sarcástico pertencia ao protagonista, os olhos semicerrados.

O homem das grandes causas fixou-o. Está tudo interligado, o próprio cônsul entendeu perfeitamente, a mulher louríssima entendeu. Os elefantes são a última réstea de liberdade e dignidade da espécie humana. Não vou perder mais tempo a explicar tudo isso, passo a vida a fazê-lo. Assinem aqui e pronto.

 

 

 

 

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publicado às 13:04


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